Lionel Messi, a Copa do Mundo e o direito à memória

Rafael Nardini /
Messi carregado por companheiros argentinos após ser campeão da Copa do Mundo

Isto na mão direita de Messi é a taça da Copa do Mundo, aquela que muita gente dizia que ele jamais ganharia. Mas eu vi, o mundo viu. Em full HD ainda por cima.

O mundo insiste em girar, o Sol teima em nascer e Lionel Messi se nega a entregar os pontos a quem gosta mais do retrovisor do que de celebrar o curso incerto do ineditismo da vida. Se a memória é seletiva, no futebol, ela pode ser ainda mais arredia. As recordações editadas pelo cérebro nos aplicam dribles. 

No dia da vitória de Messi – que dói a muitos apegados ao preto e branco -, havia quem estivesse preocupado com os “recordes” do Rei. Mas, quais? Mbappé, 23 anos, e suas duas finais de Copa. Bom, sinto informar, mas Pelé jogou pouco mais que uma partida e meia dos seis jogos do torneio disputado no Chile, a longínquos 60 anos atrás. Em duas Copas disputadas, Mbappé já tem os mesmos 12 gols de Pelé. O recorde de finais consecutivas antes dos 23 anos nunca existiu. É todinho do francês, exclusividade plena.

Lionel Messi é perseguido de perto por Mbappé

Pode que tenha sido apenas um deslize bobo, feito zagueiro presepeiro. Mas em nada muda a hipótese trabalhada aqui. Nos diz a ciência que nem toda informação é transformada em uma estrutura (engrama), pois a nossa capacidade cerebral tem limite, não é infinita. A descoberta rendeu um Prêmio Nobel ao cientista Eric Kandel, que foi capaz de comprovar a formação de memória em um molusco no ano de 2000. Saber se uma lembrança será armazenada ou não depende da amígdala cerebelosa, parte do cérebro que avalia a importância das emoções. 

Ou seja: se for interessante para você, a tendência é que o gol de Sócrates contra a União Soviética em 1982 fique para sempre gravado. Vem um pouco daí a sensação muito particular de que o passado é inigualável. Não precisa ir muito longe para dizer que essa é uma tendência conservadora. Quem busca o passado, pouco vislumbra a possibilidade de caminhar adiante. É, por óbvio, um recurso manipulado diversas vezes por movimentos reacionários ou retrógrados. Pode ser uma retrospectiva idílica, mas também um refúgio seguro do que já sabemos que gostamos, o conforto de não ser surpreendido. Tudo isso ajuda a vivermos bem com nós mesmos – e a escutar certas músicas sem parar ou rever pela milésima vez o mesmo gol que nos fez repuxar os músculos das bochechas de felicidade.

Sim, vi Messi enfileirar seis jogadores do Athletic Bilbao enquanto eu estava em Ipanema em 2015, vi ele derrubar Boateng como se esse desse uma volta em torno de si mesmo após sofrer um infarto fulminante, vi Léo marcar 91 gols durante os 365 dias de 2012. Vi Gvardiol, zagueiro croata e uma das promessas da Copa, ser convidado para dançar e perder o passo num lance de tango em plena semifinal. Messi nos brindou com 7 gols, 3 assistências, 100% de participação nos tentos argentinos no mata-mata, corretamente consagrado como MVP do torneio. Em 2007, estreou no pódio de melhores jogadores do Mundo. De lá para cá, é o maior vencedor de Bolas de Ouro, das Chuteiras de Ouro e dos meus replays no YouTube. Caso não tenhamos nos dado conta, ele levantou a taça do Mundial ao lado de parceiros pouco nobres como Otamendi, Acuña, Molina, Romero…

Maestro Messi: Mapa com todos os toques na bola no Mundial
Maestro Messi: Mapa com todos os toques na bola no Mundial

É maravilhosa a fala, anos atrás, de Steve Kerr, treinador multicampeão do Golden State Warriors e ele mesmo campeão como atleta pelo irresistível Chicago Bulls dos anos 1990, quando comentaristas e especialistas bradavam que Stephen Curry, Klay Thompson e Dreymond Green seriam esmagados na NBA do passado: “Estão todos certos. Eles nos matariam. O basquete piora a cada ano que passa. Jogadores são menos talentosos que já foram. É estranho como a evolução humana segue no rumo contrário nos esportes. Jogadores são mais fracos, menores, menos talentosos. Não sei. Difícil explicar“, arrematou, irônico. 

É bem verdade que Lionel Andrés Messi Cuccittini parece demasiado irreal. Como poderia que aos 35 anos seja capaz de ainda ser – com sobras – o maior atleta de futebol do mundo? Como pode que tenha sido em suas “piores” temporadas tão bom quanto foi Ronaldo Fenômeno. Duvida? Confira os números. As piores temporadas de Messi coincidem com as mais brilhantes de Ronaldo Nazário de Lima. Minha memória jamais poderia supor que os números do Fenômeno – 34 gols e 9 assistências em La Liga em 1996/1997 – fossem quase irrelevantes quando comparados com os de La Pulga em seu auge. O Messi esplêndido desta temporada – e já quase dois terços menos letal do que fora em seus melhores anos – se compara à máquina de jogar bola que foi Ronaldo em seu ápice. Pode consultar e comparar, se achar que estou eu também criando meias verdades.

Se nossas recordações nos aplicam chapéus e canetas, os olhos nos fazem ver, mas somos incapazes, ainda assim, de entender. Enquanto escrevo, me interpela uma amiga argentina, já no avançado da noite que jamais acabará para ela: “No puedo creerlo! Campeones del Mundo, Rafa!”, me enviou. Respondo, depois de felicitá-la com imensa alegria: “Es verdad, yo he visto la misma cosa que has visto. Es real”. Chica, pode acreditar. Você viu o que viu. Pouco depois, outro argentino querido me enviaria cenas da mais pura alegria pelas ruas abarrotadas de Buenos Aires. Muchachos, podem viver intensamente o sentimento de ter o mundo aos seus pés, aos pés de Lionel.

No fim, a glória de Messi nos serve como um antídoto anti-nostálgico. É uma cadeira na sala que todos os nascidos nos últimos 30 ou 35 anos terão para puxar, sentar e dialogar de cabeça erguida. “No meu tempo…”, “mas você não viu o Pelé”, “Maradona ganhou sozinho em 1986”. Amigos, sinto dizer, mas a carteirada acabou. O tímido e introvertido Lionel decidiu escrever com sua canhota a nossa alforria futebolística. Nosso direito à memória está resguardado, nossa lembrança está salva. Foram muitos os corajosos que militaram e ousaram crer que o teto da Capela Sistina do futebol poderia ser repintado. Faltava uma partida. Faltava uma taça. Faltava a Copa. Noventa, 120 minutos, quiçá, os penais. O 18 de dezembro de 2022 era capaz de mudar para sempre a narrativa histórica do futebol. E assim sucedeu.

As estrelinhas são o mapa dos gols de Messi na final
As estrelinhas são o mapa dos gols de Messi na final


Milhões de apaixonados pelo futebol respiram aliviados ao se verem livres do fardo de precisar dizer o óbvio: Messi, apenas mais um rapaz latino-americano, seria, indubitavelmente, um dos três maiores da história do futebol, ainda que houvesse tido uma atuação desastrosa na final no Catar. Acontece que o futebol decidiu retribuir uma pequena porção da beleza arrebatadora que o canhotinho de Rosário nos deu em forma de 793 gols e 39 trofeus. Para o Gran Finale sobrou um faroeste épico entre o que começa a ser passado – Messi – e o futuro inadiável – Mbappé. Para aqueles que juravam que o que passou já nos havia dado tudo, o 3×3 deslumbrante desta Copa nos mostra que o novo sempre vem. 

Lionel Messi levanta a Copa do Mundo pela primeira vez

Que ninguém se engane, a história insiste em nos surpreender. No futebol, ela já foi escrita, não por linhas, mas por pernas tortas. Os brasileiros que viam o reinado de Pelé sacramentado para sempre sofreram um duro golpe há poucas horas. Se remoem com dores biliares. São 24 anos sem vencer uma Copa. E nossas glórias cheiram cada vez mais a um esporte que não volta mais. Voltamos ao nosso DNA ou nos europeizamos de vez? Não temos rumo nem direção segura a seguir. Mas isso fica para outro dia. Por hoje, vou preferir ficar em paz com a minha memória. E com as mais lindas lembranças que Messi deu o futebol.                         

Rafael Nardini

Torcedor de arquibancada e jornalista de formação. Cobriu duas Olimpíadas como repórter e editor, é fascinado por táticas e assiste à partidas inteiras de futebol retrô. É Product Lead no Brasil e coordena a equipe de BettingPro Brasil.

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